Arquitetura de Museus (1)

ARQUITETURA DE MUSEUS

                                   Flávio Kiefer  - Publicado em Zero Hora 12/95

Juntar, colecionar ou  “se relacionar” com objetos de toda sorte é uma atividade tipicamente humana. Este ato primitivo está na origem de uma cada vez mais complexa instituição, que se torna mais e mais importante e consome milhões de dólares de investimentos dos países do primeiro mundo: os museus. Mas esta instituição é uma criação relativamente recente. Nasceu no século XVIII, embalada por ventos revolucionários, como uma das respostas à crescente demanda de poder da burguesia ascendente. As antigas e importantes coleções  privadas da monarquia, e muitos de seus palácios, foram “doados” ao patrimônio público para formar os acervos dos primeiros museus públicos. É verdade que o acesso não era tão livre. Em Viena, por exemplo, exigia-se que as pessoas estivessem calçadas com sapatos limpos...[1]

Os palácios convinham muito bem aos museus. A sucessão de grandes salas interligadas que caracterizavam estas edificações era adequada à exposição de telas, esculturas, curiosidades, ciência natural e outras preciosidades que os nobres tinham se dedicado a colecionar desde o Renascimento. O Museu do Louvre é o melhor exemplo deste reaproveitamento. Os palácios, naturalmente, contavam com um eficiente sistema de segurança para os tesouros que abrigavam. E, sem dúvida, a imagem de edifício importante já sacramentada na população, respondia com eficiência à necessidade de mostrar que ali estavam guardadas as riquezas da nação e que estas estavam ao alcance de todos. A principal melhoria, introduzida aos poucos, foi a construção de janelas zenitais nos tetos para aumentar a iluminação das salas.

O século XIX assistiu a uma proliferação de museus sem precedentes. O padrão, para os novos edifícios, continuou sendo o neoclássico. O Museu Britânico em Londres, o Museu do Prado em Madrid, o Museus Nacional de Berlim e muitos outros famosos museus, que justificam viagens internacionais de milhões de ávidos turistas, são desta época.

A primeira grande reviravolta na arquitetura dos museus vai acontecer no século XX, fruto do movimento modernista em arte e arquitetura. Na virada de século  vanguardista, quando toda a arte é questionada, os “velhos museus”,  pela sua imagem conservadora de lugar que abrigava a arte oficial, se transformam em “necrópole da arte” nos inflamados manifestos e panfletos modernistas. Outra crítica, mais isenta de paixões, apontava-os como lugares cansativos, pesados e meramente instrutivos - no mau sentido pedagógico da palavra.

Os arquitetos modernos não podendo ficar de fora desta discussão propuseram novos projetos abordando o tema, mas a crise das sucessivas guerras retardaram a concretização destes edifícios. Le Corbusier, em 1931 propôs em Paris o revolucionário Museu Sem Fim, em forma de uma espiral quadrada que podia crescer indefinidamente. Mas apesar de ter sido pensado para ser construído em etapas não chegou a sair do papel. Na década seguinte Frank Loyd Wright adota uma idéia parecida para o Museu Guggenheim em Nova York, transformando a idéia de Le Corbusier em uma espiral curva e ascendente, girando em torno de um grande vazio banhado pela luz natural. Projetado em 1943, teve as obras iniciadas apenas em 1955, para ser concluído em 1959.  Sert, entre 1959 e 1964, na belíssima Fundação Maeght, na costa azul francesa, mostra toda a possibilidade do concreto armado para potencializar a iluminação e ventilação dos museus. Affonso Eduardo Reidy, cria para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro um grande salão de 26x130m livre de pilares e com perfeito controle da iluminação natural e artificial. Lina Bo Bardi, em 1957, dentro do mesmo espírito e em função de peculiaridades do sítio, projeta um vão livre de 70m para o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Os dois museus brasileiros ganham imediatamente o reconhecimento internacional e são publicados e referenciados entre os mais importantes edifícios da época.

Mas não era apenas a forma do museu que estava mudando, havia toda uma nova conceituação por trás destes projetos. Os museus agora eram projetados para serem lugares agradáveis de ficar até mesmo independentemente de seus motivos-objeto: o acervo exposto. Para isso foram agregados novos serviços como restaurantes, lojas, jardins e outras facilidades. E, em contraposição  ao museu antigo, muita luz natural iluminando amplas circulações e grandes espaços de exposição muito mais integrados e fluidos. Outra grande novidade foi o uso do concreto armado, que passou a ser usado em abundância, propiciando soluções estruturais inusitadas. A presença da estrutura, muitas vezes de forma crua e brutalista, assegurando a possibilidade de grandes plantas livres e propiciando o controle da iluminação natural, quase sempre por sheds, vai ser a marca deste período.

Mas apesar de tudo, muita coisa ainda permanecia igual. Montaner[2] chama à atenção que muitos poucos artistas mudaram a relação tradicional entre objeto e espaço. A maior parte dos trabalhos de Mondrian, Kandisky, Klee, Picasso e outros permaneceram sendo feitos dentro dos cânones tradicionais: o quadro sobre a parede. Só mais recentemente é que as novas formas da arte vão requerer espaços técnicos e ambientais que se assemelham a da sala de espetáculos. E não foi só a arte que mudou, a recém criada ciência museológica também passou a exigir um controle ambiental, de luz, temperatura, umidade e qualidade do ar, criticando severamente a generosidade excessiva dos arquitetos modernistas com as transparências e fluidez dos espaços. O verdadeiro boom de construção e reconstrução de museus ocorrido nas duas últimas décadas nos países desenvolvidos incorpora estas novas necessidades e visões, caracterizando uma verdadeira revolução museológica e museográfica. A expressão “Novos Museus” (o velho Louvre entre eles), consagrada por Montaner, é a mais pura realidade. Mas desta vez, infelizmente, o Brasil assiste, totalmente alienado, a esta verdadeira revolução cultural.

[1] Pevsner, Nikolaus. Historia de las Tipologias Arquitetônicas. Gustavo Gilli, Barcelona, 1979.

[2] Josep Maria Montaner, New Museums, New York: Princeton, 1990.