Brasil: dois museus surpreendem o mundo (2)

Brasil: dois museus surpreendem o mundo

                                                                      Flávio Kiefer - Publicado em Zero Hora 02/1996

Os museus ocupam um lugar privilegiado nos países desenvolvidos; isto é certo. No Brasil, ao contrário, sofrem de um descaso que permitiria encher toda esta página com suas mazelas, mas isso já se tornou cansativo. Melhor, de vez em quando, é saber que temos todas as condições  para construir museus que podem chamar à atenção do mundo. Como prova deste potencial, vale a pena ver mais de perto o caso dos dois museus brasileiros que pela sua arquitetura e acervo ganharam, desde o seu projeto na década de 50, fama internacional. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM, projeto do arquiteto Affonso Eduardo Reidy e o Museu de Arte de São Paulo - MASP, projeto do arquiteto (assim ela gostava de ser chamada) Lina Bo Bardi são dessas exceções que mostram todas as contradições de um país que, se insiste em sufocar suas próprias potencialidades, de vez em quando explode em realizações que espantam o mundo.

O MAM, magnificamente localizado no Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro, e o MASP, situado na avenida Paulista em São Paulo, têm em comum o fato de terem sidos apoiados por fortes grupos de comunicação. No Rio, um grupo de senhoras ligadas ao jornal Correio da Manhã e, em São Paulo, o próprio Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, a Globo da época, comandava uma luta sem tréguas para ver de pé seu museu. Mas, vício brasileiro, estas poderosas instituições foram bater às portas do Estado em busca dos recursos necessários...

No Rio, o ambiente parece ter sido mais favorável à construção de um museu de arte moderna. Capital da república, tinha tradição cultural e era uma cidade turística. Também havia um grupo de arquitetos, como Lúcio Costa, Oscar Niemayer, Jorge Moreira, e o próprio Reidy, que desde o projeto do edifício do Ministério da Educação e Saúde em 1936, hoje Palácio Capanema, tinham conquistado fama internacional e gozavam de prestígio suficiente para respaldar esta idéia. As maiores dificuldades, a parte a arrecadação de fundos, se restringiram à conquista do belíssimo terreno que estava destinado à construção da nova catedral do Rio de Janeiro. Reidy que também era funcionário municipal e depois veio a fazer, junto com o paisagista Roberto Burle Marx, o projeto de urbanização do Parque do Flamengo, sabia como ninguém escolher o melhor local para o museu que imaginava.

A preocupação com a inserção do edifício na paisagem foi uma preocupação constante na mente do arquiteto. A leveza e transparência do edifício, de fato, revelam esta preocupação tão bem apanhada por Carlos Drumond de Andrade[1]:

 

            Uma coisa pura

            Linha luz e ar

            pousa frente ao mar

 

Reidy, contemporâneo das novas idéias museológicas modernistas, projetou espaços flexíveis e fluidos e se preocupou em fazer com que a paisagem externa participasse do acervo do museu. Também não descuidou da iluminação interna, valorizando grandes janelas e aberturas zenitais. Mas é a estrutura do edifício do MAM que se tornou um dos pontos altos da arquitetura moderna brasileira. Pórticos paralelos escondem, com leveza e elegância, o esforço que fazem para suspender a cobertura e os mezaninos enquanto os pilares de sustentação do pavimento principal do museu são independentes, mas formam com os pórticos um dos mais sofisticados “Vs” do repertório modernista brasileiro.

Em São Paulo as coisas não foram tão fáceis. Em vez de conquistar um terreno para erguer a sua sede, a estratégia dos paulistas foi a de convencer a prefeitura de construir um edifício que abrigasse o MASP. Esta estratégia deixou seqüelas tanto no edifício quanto no seu funcionamento. Lina Bo Bardi não pode planejar os necessários espaços técnicos e o MASP sofre ainda hoje com sua falta. Mas estes percalços não tiram significado do edifício, pelo contrário, o conhecimento de sua história só aumenta a admiração por esta arquiteta guerreira que não se acanhou diante das dificuldades. Quando Lina teve a idéia de desenhar e propor à prefeitura de São Paulo um novo MASP, o terreno já estava sendo objeto de disputa pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, que havia realizado a “1a Bienal” naquele local.  Aliás, diga-se com justiça, que foi o primeiro a reivindicar o local para a construção de sua sede e chegou mesmo a organizar um concurso de arquitetura, vencido por Reidy. Mas a força dos Diários Associados - chamavam o MAM de “museu fantasma” - desbancou esta pretensão em favor do projeto de Lina Bo Bardi para o MASP. O argumento decisivo foi o de que o projeto de Lina preservava inteiramente livre o belvedere da avenida Paulista e ocupava com o MASP apenas os andares superiores (o que fez com que a disputa se centrasse nos andares em subsolo...).

A estrutura sobre o belvedere da avenida Paulista é um dos maiores vãos livres de concreto armado do mundo e se constitui na marca e força do edifício. Uma grande caixa de vidro, de 70x30x20m, suspensa por dois imensos pórticos de 70m de vão criam na avenida um vazio que acolhe e atrai a massa paulistana. Numa cidade que não prima pela construção de lugares simbólicos - a própria Lina reclamava que em São Paulo não tinha lugares para ir - o MASP se transformou num destes lugares.

Se o MASP, de fato, há quase 30 anos ocupa o edifício da avenida Paulista, é espantoso que tenha sido só recentemente, na gestão da prefeita Erundina, que ele recebeu a concessão total do prédio, acabando com a incongruência de um dos mais importantes museus do mundo não ter uma sede própria. A verdade é que tanto o MASP quanto o MAM, inegáveis patrimônios não só da arquitetura, mas da cultura brasileira, enfrentam dificuldades inimagináveis  (como goteiras sobre o valiosíssimo acervo do MAM!) para quem apenas os conhece pela sua fama. Mas isso já são mazelas...

[1] Carlos Drumond de Andrade, Correio da Manhã, 12 de agosto de 1964.