CCMQ, 18 anos depois

CCMQ, 18 anos depois 

                                                     Flávio Kiefer em 2008

A reciclagem do Majestic Hotel em Casa de Cultura Mário Quintana vai completar 18 anos em 25 de setembro próximo. A idade em si não faz parte daquelas datas que marcam um edifício, mas faz pensar que já temos uma geração que cresceu convivendo com essa instituição. Muitos de forma direta, outros com sua presença no circuito cultural e turístico da cidade, mas quem já não se deparou com uma foto de sua fachada atrás de um telejornal ou estampada na publicidade de algum produto?

O nome de Mário Quintana foi parte importante do processo de preservação desse edifício e é muito utilizado para explicar o fenômeno de sua aceitação junto ao público. Certamente isso tem sua razão de ser, mas, por outro lado, essa explicação obscurece a importância da arquitetura na formação cultural da cidade e, no caso particular, a de Theo Wiederspahn. Na minha opinião, mais do que motivos históricos foi a excepcional arquitetura do Majestic Hotel que levou à sua preservação. Seria mera coincidência que marcos igualmente reconhecíveis - e valorizados pela publicidade nacional - como o MARGS, Memorial do Rio Grande do Sul, Santander Cultural ou Shopping Total, tenham sido projetados e construídos pelo mesmo arquiteto? Evidentemente não, mas é incrível que essa arquitetura nunca tenha sido devidamente reconhecida e homenageada. O nome de seu autor nunca batizou uma rua ou uma praça na cidade que ajudou a dar feição. Merecia uma avenida.

A história da arquitetura de Porto Alegre esconde alguns mistérios. Entre eles, os efeitos do projeto nacionalista e de modernização da Revolução de 30. Nesse período, houve uma grande cisão profissional e, em seguida, uma quebra de paradigmas na arquitetura e urbanismo da cidade. Na nova ordem estabelecida, os arquitetos de ofício foram paulatinamente sendo proscritos pelo CREA, impedidos de prosseguirem na construção da cidade. Entre eles Theo Wiederspahn, que, segundo o prof. Gunter Weimer, passou a sobreviver graças aos projetos de igrejas para o interior do estado, longe da rigorosa fiscalização. Não bastasse esse impacto sobre a arquitetura da cidade, em 1944 é assinado pelo prefeito Brochado da Rocha o decreto 313, que, depois confirmado pelo Plano Diretor de 1959, deu início ao maior processo de extinção legal de uma cidade histórica. De uma penada, um novo alinhamento predial, e depois um “recuo para jardim” iniciava a cultura da demolição e substituição dos prédios antigos em Porto Alegre. Esse assunto, no meu entender, ainda está carente de uma revisão.

Como uma cidade que tinha construído um patrimônio arquitetônico como o nosso pode romper de forma tão brutal com seu passado e perder o respeito pela produção de seus melhores arquitetos? Esse é o mistério. O que não é segredo é que os quarenta anos que se seguiram ao pós-guerra foram de rejeição, abandono, demolição e depredação do que Porto Alegre tinha de melhor. O que não era demolido era escondido por vistosas fachadas de alumínio, disfarçando a idade do edifício. A belíssima sede do antigo Julinho, situada no quarteirão da UFRGS e destruída por um incêndio, em vez de ser restaurada foi vergonhosamente modernizada da forma que lá está, como Faculdade de Ciências Econômicas. Os exemplos são muitos, mas lembro deste porque, para mim, foi uma descoberta recente.

É certo que nós gaúchos nos criamos numa tradição do embate, formados na defesa radical das idéias e ações. Ainda hoje há um orgulho disso, como um fantasma que não quer nos deixar ultrapassar as antigas disputas sangrentas. Isso pode explicar a virulência do confronto entre históricos e modernos que ocorreu por aqui. Um lado tinha que sair vencedor, e foi. Não conheço outro lugar em que os modernos tenham vencido os históricos de forma tão arrasadora. Vitória pífia, porque perdeu a cidade e perdemos os arquitetos. Hoje, a arquitetura em Porto Alegre não tem grande importância para seus cidadãos, poucos valorizam sua história ou seus arquitetos. A cultura da cidade não se preocupa em valorizar nem mesmo aqueles que, históricos ou modernos, reconhecidamente deixaram um legado arquitetônico importante. Talvez a chegada de Álvaro Siza abra a possibilidade de uma nova valorização profissional, mas isso não é garantido, pois experiências anteriores, seja com Gladosh ou Fresnedo Siri, mostram o quão arredios podemos ser à presença estrangeira, até mesmo quando ela vem a favor da arquitetura de qualidade.

O panorama da arquitetura portoalegrense sofre nova reviravolta ao final dos anos 80. Por influência do pensamento pós-moderno, que valoriza a reconciliação com a história, passa a ser cada vez maior a valorização da arquitetura antiga. Se até essa data, o que era antigo era considerado pejorativamente como algo velho, superado, agora qualquer coisa velha passa a ser considerada como antiga ou histórica, a ser protegida. O gosto popular por essa arquitetura talvez provenha mais do gosto pelo passado do que propriamente pela boa arquitetura do passado, da sua cultura e história. Parece que ao futuro estamos apenas preocupados em legar nossa capacidade de preservar o passado. É como se houvesse uma inversão de valores, quase uma revanche. A divisão e a paixão pela radicalização maniqueísta continua presente, só que agora o antigo é o bem, e o novo o mal. É essa arquitetura que vai acompanhar as missões culturais oficiais ou ocupar as revistas e suplementos culturais. A arquitetura – histórica – é cultura! Sobre a arquitetura contemporânea, silêncio ou desdém. A antiga cisão se manifesta até mesmo na hora de defender o patrimônio, onde o moderno é caso a parte, são duas histórias a contar.

De qualquer forma, é bom saber que superamos a idéia de que o melhor a fazer com o antigo é demoli-lo para construir algo moderno em seu lugar. As nossas cidades são o resultado desse processo de superposição sistemática do novo sobre o antigo, cada geração construindo sobre o que a outra construiu sem a menor preocupação em estabelecer pontes. Se os anos 40 marcaram a ruptura com o passado, o final dos anos 80 deram início a uma conciliação que não deveria trilhar o caminho inverso, do conservadorismo extremo. A retomada do curso da história da cidade passa necessariamente pela terceira via, a da valorização da arquitetura entendida como uma arte da reconcialização entre o histórico e o moderno. Não apenas o histórico colonial, aceito e valorizado pelos modernistas, mas também, e principalmente entre nós, o eclético, o historicista, ou que outros nomes tenham os estilos do final do XIX e início XX. É preciso re-arquiteturar a cidade. É preciso assumir o tempo pós-moderno.

É nesse quadro polarizado e difícil que se insere as experiências de re-arquitetura de Porto Alegre. O primeiro trabalho de importância foi o da restauração do Teatro São Pedro iniciado lentamente pelo arquiteto Mancuso em 1975. Em vez de demoli-lo, como foi cogitado, foi corajosamente restaurado em um centro da cidade visivelmente em processo de decadencia. O acalorado debate em meados dos anos 80 sobre a demolição do Gasômetro, que impedia o avanço da I Perimetral, foi um segundo momento importante no processo de revitalização do centro da cidade. Lamentavelmente, nesse momento, Porto Alegre jogou fora a oportunidade de ter uma obra de Lina Bo Bardi, apaixonada pela possibilidade de realizar ali o Museu do Trabalho. Aos poucos outros edifícios foram protegidos pelo órgãos do patrimônio histórico, cada vez mais fortes e atuantes, obrigando seu aproveitamento. Se muita coisa se perdeu, muito se salvou.

Depois desse breve histórico, já não deve ficar difícil para os jovens entenderem por que o prédio do Majestic Hotel também quase foi demolido, assim como o do Mercado Público, Chalé da Praça XV, hospital São Pedro e tantos outros que escaparam das picaretas.  Quando o Hotel faliu em 1979, o mercado só atribuía valor aos seus dois terrenos. O edifício, ao contrário, era contabilizado pelo custo da sua demolição. Foi graças a pertinácia dos defensores do patrimônio, aproveitando a carência de espaços culturais na cidade e ao fato de Mário Quintana ter vivido ali, que houve a interferência do Governo do Estado, protegendo o edifício. Primeiro, comprando-o através do Banrisul para transformá-lo em escritórios do banco e depois transformando-o em Casa de Cultura Mário Quintana por força de lei aprovada na Assembléia Legislativa do Estado em 1983. No início do governo Simon em 1987 Joel Gorski e eu, na época funcionários do Estado, fomos emprestados para a tarefa de projetar a reciclagem do edifício. Toda essa história, dos três anos e meio que trabalhamos ali, está contada na Revista Projeto n. 122.

Desde o início, entendemos nosso trabalho como uma quarta intervenção no edifício. Theo Wiederspahn tinha sido o responsável pelas outras três e em cada uma delas usou as técnicas mais apropriadas de cada época. Por outro lado, a inegável distância temporal e cultural, obrigou-nos a buscar uma conciliação arquitetônica entre linguagens tão diferentes. Outra preocupação inicial marcante foi a de projetar o próprio projeto, ou seja, planejar os caminhos para trazer para o processo de construção do centro cultural a comunidade que tinha conquistado o edifício. Sabíamos que só tornando-a parceira teríamos chance de atingir os objetivos traçados.

Passados 18 anos, pode-se dizer que hoje o panorama da arquitetura é muito diverso daquele do final dos anos 80. Do ponto de vista da defesa do patrimônio arquitetônico, sem dúvida, estamos muito melhor, apesar de uma tendência à sacralização dos bens antigos que tornam a tarefa da re-arquitetura muito mais difícil. Mas esse não chega a ser um grande problema. O que está pior são as condições da profissão, porque hoje o projeto perdeu grande parte do seu valor. O rigor técnico nos aspectos construtivos e a inteligência na solução de programas cedeu espaço para um esteticismo sem rumo, onde para chamar a atenção basta ter uma referência com algo publicado no exterior ou ser “diferente” ou “inovador”. Nesse vale tudo, claro, tudo vale muito pouco.