Centro cultural para quê? (Zero Hora, 1992)

Centro cultural para quê?

                             Flávio Kiefer – Porto Alegre, Zero Hora 04 dez 1992

Nas sociedades avançadas do mundo contemporâneo, o desenvolvimento é medido, cada vez mais, por índices de qualidade de vida. Os parâmetros, portanto, deixam de ser puramente econômicos (objetivos) e passam a ser principalmente culturais (subjetivos). O ser humano integral, inteligente e criativo, consumidor interativo de informação, cultura, arte e lazer, ocupando o lugar do enfastiado (e escravizado) consumidor de produtos industriais, mais do que uma utopia, será, sem dúvida, a meta do século XXI.

Se esta realidade muitas vezes é considerada inalcançável por uma sociedade que ainda luta diariamente pelo consumo de bens essenciais, há, por outro lado, indícios de que a cultura, também entre nós, passa a ser vista como farol importante para se atingir o desenvolvimento pleno. Um dos sintomas mais evidentes desta mudança é a proliferação, mesmo em condições consideradas adversas, dos centros culturais.

Um centro cultural tem a capacidade de referenciar e dar identidade a uma população. Mais do que isso, um centro cultural dignifica a comunidade dando-lhe novas referências simbólicas, contribuindo para que ela se reconheça como organismo autônomo e apto a determinar seu futuro.

Foi dentro deste entendimento que foi realizado o projeto da Casa de Cultura de Esteio. Esta cidade industrial, com 70 mil habitantes e um ótimo nível de renda, carecia de valores simbólicos que congregassem seus cidadãos. A Casa de Cultura de Esteio vai suprir a cidade – e a região – com teatro e cinema, biblioteca, (com acervo especial de música e vídeo), oficinas de artes cênicas e visuais, artes infantis e sala de exposições. Funcionando como minicentro de convenções, vai permitir a realização de conferências, seminários e tudo o mais que a vida social, comercial e cultural de uma cidade industrial exige.

Muitos ainda estranham que numa “época destas” prefeitos (e também entidades privadas) invistam em centros culturais, mas felizmente é cada vez maior o número de pessoas que acreditam que, justamente, este é o caminho da recuperação de sentido de unidade social, única forma de retomar o desenvolvimento, do qual o aspecto financeiro é apenas uma de suas facetas.