Cidade Cindida

Cidade Cindida

                                       Flávio Kiefer  - Revista As Partes, Porto alegre, 2012.

 

A história da arquitetura de Porto Alegre esconde alguns mistérios. Entre eles, os efeitos do projeto nacionalista e de modernização da Revolução de 30. Nesse período, houve uma grande cisão profissional entre praticantes (normalmente estrangeiros) e diplomados que coincidiu com a quebra de paradigmas na arquitetura e urbanismo da cidade. Na nova ordem estabelecida, os arquitetos de ofício foram paulatinamente sendo proscritos pelo CREA, impedidos de prosseguirem na construção da cidade. Entre eles, para pegarmos um exemplo marcante, Theo Wiederspahn, que, segundo o prof. Gunter Weimer, passou a sobreviver graças aos projetos de igrejas para o interior do estado, longe da rigorosa fiscalização. Não bastasse esse impacto sobre a arquitetura da cidade, em 1944 é assinado pelo prefeito Brochado da Rocha o decreto 313, que, depois confirmado pelo Plano Diretor de 1959, deu início a um dos maiores processos conhecidos de extinção legal de uma cidade histórica. De uma penada, um novo alinhamento predial, e depois um “recuo para jardim” iniciava a cultura da demolição e substituição dos prédios de Porto Alegre. Esse assunto, no meu entender, ainda está carente de uma pesquisa mais aprofundada.

Como uma cidade que havia construído um patrimônio arquitetônico como o nosso pôde romper de forma tão brutal com seu passado e perder o respeito pela produção de seus melhores arquitetos? Esse é o mistério. O que não é segredo é que os quarenta anos que se seguiram ao pós-guerra foram de rejeição, abandono, demolição e depredação do que Porto Alegre tinha de melhor. O que não era demolido era escondido por vistosas fachadas de alumínio, disfarçando a idade do edifício. A belíssima sede do antigo colégio Julinho, situada no quarteirão da UFRGS e destruída por um incêndio, em vez de restaurada foi modernizada da forma que lá está, como Faculdade de Ciências Econômicas. Os exemplos são muitos, mas lembro deste porque, para mim, foi uma descoberta impactante.

É certo que nós gaúchos nos criamos numa tradição do embate, formados na defesa radical das idéias e ações. Ainda hoje há um orgulho disso, como um fantasma que nos impede de ultrapassar antigas disputas sangrentas. Isso pode ser uma pista na explicação da virulência do confronto entre históricos e modernos que ocorreu por aqui. Um lado tinha que sair vencedor, e saiu. Não conheço outro lugar em que os modernos tenham vencido os históricos de forma tão arrasadora. Vitória pífia, pois perdeu a cidade e perdemos nós, arquitetos. Hoje, a arquitetura em Porto Alegre não tem grande importância para seus cidadãos, poucos valorizam sua história ou seus arquitetos. A cultura da cidade não se preocupa em valorizar nem mesmo aqueles que, históricos ou modernos, reconhecidamente deixaram um legado arquitetônico importante. A chegada de Álvaro Siza poderia abrir a possibilidade de uma nova valorização profissional, mas isso não é garantido, pois experiências anteriores, seja com Gladosh (Ed.Sulacap, antigo Ed. Mesbla) ou Fresnedo Siri (Jockey Club) ou os diversos projetos de Niemeyer que nunca a chegaram a ser construído por aqui, mostram o quão arredios podemos ser à presença estrangeira, até mesmo quando ela vem a favor da arquitetura de qualidade. O nome Theo Wiederspahn, para voltar a citar um estrangeiro que escolheu viver aqui, nunca batizou uma rua ou uma praça na cidade que ajudou a dar feição. Merecia uma avenida.

Esta vitória modernista prolonga-se, sem sobressaltos, até os anos 80, quando começa uma reviravolta no pensamento arquitetônico-urbanístico da cidade. Por influência do pensamento pós-moderno, que se reconcilia com a história, passa a ser cada vez maior a valorização da arquitetura antiga da nossa cidade. Se até essa data, o que era antigo era considerado pejorativamente como algo velho, superado, agora qualquer coisa velha passa a ser considerada como antiga ou histórica, a ser protegida. O gosto popular por essa arquitetura talvez provenha mais do gosto pelo passado do que propriamente pela boa arquitetura do passado, da sua cultura e história. Parece que ao futuro estamos apenas preocupados em legar nossa capacidade de preservar o passado. É como uma inversão de valores, quase uma revanche. A divisão e a paixão pela radicalização maniqueísta continuam presentes, só que agora o antigo é o bem, e o novo o mal. É essa arquitetura que vai acompanhar as missões culturais oficiais ou ocupar as revistas e suplementos culturais públicos. Agora, a arquitetura – histórica – é cultura! Sobre a arquitetura contemporânea, silêncio ou desdém. A antiga cisão se manifesta até mesmo na hora de defender o patrimônio, onde o moderno é caso a parte, são duas histórias a contar.

De qualquer forma, é bom saber que superamos a idéia de que o melhor a fazer com a arquitetura antiga é demoli-la para construir algo moderno em seu lugar. As nossas cidades são o resultado desse processo de superposição sistemática do novo sobre o existente, cada geração construindo sobre o que a outra construiu sem a menor preocupação em estabelecer pontes. Se os anos 40 marcaram a ruptura com o passado, o final dos anos 80 deram início a uma conciliação que não deveria trilhar o caminho inverso, do conservadorismo extremo. A retomada do curso da história da cidade passa necessariamente pela terceira via, a da valorização da arquitetura entendida como uma arte da reconciliação entre o histórico e o moderno. Não apenas o histórico colonial, aceito e valorizado pelos modernistas, mas também, e principalmente entre nós, o eclético, o historicista, ou que outros nomes tenham os estilos do final do XIX e início do XX. É preciso rearquiteturar a cidade. É preciso assumir o tempo pós-moderno.