A Cidade Enquanto Lugar da Arte

I Simpósio Arte Pública & Espaço Urbano, setembro de 1996

Organização da Secretaria Municipal da Cultura

Palestra: Confluências e Convergências

 

A CIDADE ENQUANTO LUGAR DA ARTE, arq.Flávio Kiefer

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o convite para falar neste fórum. É sempre uma oportunidade nova, porque o arquiteto está muito acostumado a falar de arquiteto para arquiteto. Isso é uma deformação profissional que devemos mudar e transformar, porque não se faz Arquitetura só com arquitetos, e sim com a coletividade, com os clientes, com os construtores, enfim, com todo um ambiente cultural.

Então, é muito importante nos relacionarmos com este ambiente. Para mim, é uma oportunidade especial poder conversar um pouco sobre Arquitetura e Arte. Eu sei que o motivo do convite para esta palestra foi a minha pesquisa sobre museus. De fato, eu poderia abordar o assunto museus e certamente estaria falando sobre a cidade enquanto lugar da Arte, que é meu tema.

Os museus fazem parte dos espaços públicos da cidade e neste final de século são acontecimentos urbanos sem precedentes. Nos países desenvolvidos verdadeiras multidões freqëntam esses espaços em busca de satisfação intelectual, de lazer, de fuga da solidão ou até mesmo para comprar futilidades com grife. É um fenômeno urbano que está ocorrendo em várias partes do mundo –aqui, nem tanto -, mas é de nos perguntarmos o porquê destes acontecimentos.

Eu acho que não é só uma questão de amor à Arte, e que há outros interesses que levam à reabilitação e a tantos investimentos em museus. Os museus se tornaram verdadeiros templos urbanos e têm sido usados, muitas vezes, como vetores de organização de setores da cidade. A própria Usina do Gazômetro - onde estamos agora -, apesar de não ser propriamente um museu, é um exemplo deste tipo de revitalização desta ponta da cidade, que já foi a parte dos fundos de Porto Alegre, e que agora rapidamente está se tornando a sua fachada.

O que estou pesquisando é a arquitetura dos museus, um tema muito específico diante de toda a complexidade Arte e cidade. Como arquiteto e como cidadão, me interessa muito discutir essa relação. Todo arquiteto é, antes de mais nada, um construtor da cidade que, via de regra, se preocupa com a qualidade dessa construção. E o arquiteto, hoje, sabe que não pode construir a cidade sozinho, como chegaram a acreditar os arquitetos modernistas, que se sentiam auto-suficientes para resolver a questão urbana.

Hoje, mais humildimente, reconhecemos que a Arquitetura nasce da inter-relação arquiteto, cliente, construtor, além de outros fatores, como ambiente cultural e econômico. Eu imagino que o propósito desse simpósio seja esse mesmo, buscar na Arte, entendida como produto do trabalho dos artistas, e na Arquitetura formas de melhorar a qualidade do espaço urbano.

Para isso, vamos mergulhar, então, no espaço urbano para que possamos entender um pouco melhor como ele é formado e, quem sabe, começarmos a sonhar com uma cidade mais integrada com as formas de expressão do ser humano.Quando se pensa em “Arte Pública & Espaço Urbano”, logo nos vem à mente a idéia da arte inserida nos espaços abertos da cidade. Se olharmos o programa deste simpósio, veremos que, de fato, os relatos e experiências da arte pública giram em torno dos espaços abertos: Praça da Sé, Museu de Rua, os concursos de esculturas que a prefeitura vem realizando, etc.

Há uma associação direta entre Arte Pública e espaço público, e este é visto como os espaços abertos da cidade em oposição aos espaços fechados. Esta é a maneira mais simples e corrente de dividir a cidade: espaços abertos iguais a espaços públicos, espaços fechados iguais a privados. Há uma razão histórica para esta divisão: o palco dos fatos urbanos públicos mais importantes sempre foram as ruas, praças e largos. Antes das modernas formas de mídia, os editais importantes eram lançados ao povo nas praças. Assim como os julgamentos, as execuções, tudo o que era importante na cidade ocorria na rua. Os edifícios do poder eram isto mesmo, os edifícios dos governantes, tinham caráter privado, por mais democrática que a sociedade pudesse se dizer. Hoje, mesmo aqui no nosso país, há muitos espaços públicos como teatros, centros culturais e outros que o povo não entra por pura inibição ou, às vezes, por barreiras nem tão sutis.

Assim, o normal seria que nos detivéssemos na discussão da relação da Arte com esses espaços abertos. Entretanto, aproveitando que o título da palestra é “A cidade enquanto lugar da Arte”, e até para introduzir um pouco de polêmica, vou aproveitar para ampliar o foco do problema abordando a questão da cidade como um todo. Isso vai nos obrigar a reconsiderar os limites do espaço público urbano. Que limites são esses?

A resposta mais imediata seria: no encontro com o espaço privado. Mas isso, na verdade, não responde nada; porque: como se definem os limites entre o espaço público e o privado?

Então nós vamos entrar numa outra questão: o espaço interno dos museus é público ou privado? E o “mall” de um shopping? E o interior de uma igreja? Depende da época? E o hall de um banco? A Usina do Gasômetro, o espaço interno aqui é público ou privado? Os espaços – só para provocar um pouco – da Casa de Cultura Mário Quintana, onde se exige uma carteira de identidade[1] para entrar, é espaço público ou privado?

A cidade, na verdade, é formada por uma soma infinita de acontecimentos espaciais; cada acontecimento, a parada de ônibus, por exemplo, pode ser um lugar ou não para o cidadão, onde todo dia ele pega seu ônibus. Se é indiferenciado, não é um lugar, sem tem particularidades identificáveis por um grupo de usuários, ele pode se tornar um lugar. O próprio ônibus, quando oferece poesia em suas janelas[2], pode estar criando um sentido de lugar para os passageiros. A mesma coisa acontece na agência dos Correios, no banco, no mercado, no teatro, nas lojas e tantos outros espaços que percorremos todos dias, e que configuram a nossa vida urbana em particular. Na cidade contemporânea, e cada vez mais com os novos meios de comunicação informatizados, a diferenciação tradicional dos espaços está mudando. Um simples telefone celular que tocasse aqui, modificaria completamente a relação que estamos tendo com esta sala. A dimensão espacial seria aumentada, seria modificada. Um cidadão no meio de um engarrafamento, com seu automóvel parado, ouvindo música, com ar condicionado funcionando, não se sente no espaço público, por mais que a salutar propaganda tente convencê-lo que todo transporte é público. Na verdade ele está isolado e está num espaço, para ele, privado.

Estou levantando tudo isso como provocação, querendo mostrar que a tradicional relação da arte com os espaços urbanos precisa mudar se quiser conquistar seu espaço na cidade. A cidade, hoje, é muito mais complexa que a simples divisão espaço público espaço privado. É certo que a cidade ainda hoje é, e será por muito tempo, formada por espaços abertos ou fechados, construídos ou vazios, cobertos ou descobertos, públicos ou privados e todas as relações possíveis entre estas possibilidades. Quanto mais rica a variação combinatória entre estes elementos, mais complexa, elaborada e interessante é a cidade.

Por outro lado, a maneira de entender ou delimitar esta divisão leva a diferentes interpretações do que é a cidade. O que mais interessa é a maneira de construir a própria cidade. A definição desses limites não é tão simples, a própria construção do espaço público urbano é resultado, em grande parte, da construção do espaço privado. Vejam que coisa mais intrincada. Não estou querendo confundi-los, mas esclarecer alguns pontos. Os espaços urbanos definem os espaços privados? Ou é ao contrário, os espaços construídos conformam o espaço urbano? Essa é uma grande discussão que percorre a história da cidade e a maneira de respondê-la significa construir cidades de maneiras também diferentes.

Ora o espaço urbano é o vazio entre as construções, ora as construções são simples limites desse espaço urbano. Em outras palavras: o que é positivo e negativo nessa relação? A forma e a oscilação da balança desses dois pesos tem resultado em cidades diferentes ao longo da História. Sem esquecer, ainda, os espaços intermediários, que têm função primordial na costura da unidade urbana. Os espaços intermediários são as passagens, galerias, halls, que graduam a passagem do público para o privado; na verdade estou dizendo que existe o mais privado e o mais público. E, em contrapartida, o menos privado e o menos público e toda uma gradação entre esses dois.

A gente chama de cidade histórica aquela anterior à cidade modernista – aquela que o modernismo se propôs a substituir. É a cidade antiga, que tinha toda uma história e que privilegiava o espaço urbano (público) como espaço positivo. As construções (edifícios) eram as paredes que definiam os limites do espaço público; essa cidade tradicional era construída como uma obra de arte coletiva. Os vazios se tornavam positivos paulatinamente por uma sabedoria que era da comunidade. Cada nova construção dava seu quinhão para a formação do espaço público como uma sala sem teto.

A partir do Barroco, os espaços abertos começaram a ser, literalmente, desenhados; as prefeituras da época construíam ou mandavam construir as fachadas que interessavam aos espaços públicos, deixando aos proprietários a liberdade de construir o que quisessem atrás dessas fachadas. A grande reforma de Paris no século XIX usou muito desse recurso. Aquelas fachadas que se vêem lá foram desenhadas como um todo e o que tem atrás não interessava. O importante era fachada que se estava desenhando, projetando o espaço vazio, que não era visto, nem entendido, como espaço vazio.

Camillo Sitte, um arquiteto austríaco, escreveu um livro brilhante em 1889, em que justamente chamava a atenção para “A Construção da Cidade Segundo seus Princípios Artísticos”, título de seu livro, mostrando a importância da construção dos espaços urbanos como espaços positivos. Camillo Sitte, preocupado – vejam como o assunto é antigo - com a destruição da cidade tradicional, pôs em evidência valores urbanos da cidade medieval, fazendo uma análise minuciosa não de seus edifícios, mas dos vazios resultantes entre eles. Estudou-os como espaços positivos, medindo e relacionado suas dimensões, tirando conclusões como: uma praça não deve ser menor do que uma vez a altura do seu edifício principal ou maior do que duas vezes esta mesma altura. Esse é um exemplo de relação de uma praça que ele estudou, numa área que ele considerou com harmonia.

Pensemos, agora, na Praça Montevidéu, em frente da prefeitura de Porto Alegre, antes dos edifícios que hoje existem à sua volta: o Banco Meridional, o Edifício União e outros. Aquela praça tinha uma conformação, uma proporção que valorizava o edifício da prefeitura. Hoje, com os novos edifícios a escala é completamente diferente, mas ainda temos um desenho reconhecível. Agora, comparem as praças dessas duas épocas diferentes com a Praça da Harmonia que tem como sua parede formadora a Rua dos Andradas, onde temos um verdadeiro caos. A gente nem pode dizer que é uma parede que conforma um espaço urbano, cada proprietário fez um edifício de altura diferente, de uma forma diferente.

Camillo Site estudou também a forma desses vazios, a maneira como chegam as ruas neles, se são visíveis ou não, se formam curvas ou permitem ver o horizonte, e assim por diante. Vale dizer que Camillo Sitte, que fez muito sucesso com seu livro até o início deste século, era contrário aos edifícios isolados ou a continuidade dos vazios que formam os espaços urbanos. Por isso caiu em desgraça com a chegada do urbanismo modernista que tinha em Le Corbusier seu maior propagandista. O urbanismo modernista – o do princípio do século para cá -, na busca de racionalizar a construção da cidade partiu de outra vertente do urbanismo do século XIX, a Cidade Jardim.

O século XIX foi pródigo em buscar soluções radicais para a cidade (e para a sociedade), e não era para menos, pois a qualidade de vida urbana, principalmente na Inglaterra, era terrível. Lá, a industrialização gerou problemas para a qualidade das cidades.

A Cidade Jardim foi uma solução que pegou, porque se propunha a organizar a cidade capitalista, e seus princípios eram muito simples: zoneamento funcional e muito verde, além de uma pretensão de limitar a população. E isso era o que todo mundo queria, ar puro e organização. A pretensão de limitar a população nunca se realizou. Mas a idéia da Cidade Jardim se espalhou pelo mundo, chegando até mesmo a um loteamento popular em Porto Alegre – para quem não sabe, o nosso IAPI está baseado nos princípios da Cidade Jardim.

Mas o que eu quero chamar a atenção sobre a Cidade Jardim é que foi ela que introduziu um novo elemento na formação dos espaços urbanos: a vegetação. É muito importante perceber o potencial desenhador da vegetação para entender o desastre em que se transformaram nossas cidades modernas, onde o verde raramente cumpre esse papel. Em vez de jardins arborizados, que delimitam e diversificam os espaços, intermináveis parques de estacionamento. Brasília é a grande exceção, lá o espaço livre vale por si mesmo (mas, mesmo lá, a vegetação não chega a subdividir o espaço infinito). Alguns podem querer discutir o custo e a viabilidade destes imensos jardins sem fim, mas isso já seria outro assunto. 

O urbanismo modernista aprofundou os princípios da Cidade Jardim, mas o que mais nos interessa aqui é que ele inverte totalmente a ótica da relação fundo-figura que nós estamos examinando. O espaço urbano passa a ser um continuum infinito salpicado de edificações. Ou seja, o espaço urbano passa a ser negativo, enquanto as construções se transformam em objetos positivos. Isso é uma mudança radical. O edifico não público principalmente – o edifício público sempre teve uma importância, um destaque na cidade histórica – assume uma importância jamais vista na cidade. O edifício comum, o de habitação, também passa a ter uma importância que nunca teve. Cada edifício passa a ter autonomia e individualidade própria. Os arquitetos deixam de projetar o espaço urbano para se dedicar única e exclusivamente ao edifício, que é visto como obra de arte autônoma. É só pensarmos um pouco nas obras de Niemeyer, para nos darmos conta de que elas são sempre isoladas e praticamente prescindem das cidades onde estão localizadas. Tentem fazer o mesmo com algumas igrejas barrocas, que vocês vão ver que automaticamente a imagem da cidade em que elas estão inseridas vem junto e, às vezes, é até difícil isolar o edifício, que pode estar encostado no vizinho.

A cidade modernista nasceu com o mundo da máquina e Le Corbusier, profético e panfletário, além de muito poético (o que talvez explique a rapidez com que suas idéias se espalharam pelo mundo), nos fala de um novo tempo, de um novo homem e um novo mundo de velocidade e realizações antes inimagináveis. E, claro, para este novo mundo, uma nova cidade: “a rua deixa de ser um corredor entre duas fachadas erguidas ao longo de suas margens e no interior do qual se precipitam, oprimindo excessivamente, as coisas mais díspares: pedestres, cavalos, automóveis, caminhões e bondes”.

Le Corbusier, num discurso inflamado, se bota a organizar a antiga cidade, pulverizando-a pelo território de...todo planeta! Há por trás do projeto de cidade moderna a idéia de superação (por destruição) da cidade de Camillo Sitte. O século XX começou, sem dúvida, muito presunçoso em suas pretensões... A cidade deixa de ser uma obra de arte coletiva de construção dos espaços públicos para ser planejada e preparada para a construção de objetos individualizados, estes agora vistos como obras de arte. 

Para terminar esta breve história, falta dizer que a partir dos anos 60 começou a haver uma saturação do ideário modernista. A destruição de tecidos tradicionais da cidade – e aí se volta a falar de tecidos - e a construção dos novos conjuntos habitacionais com os princípios da arquitetura e urbanismo modernos, principalmente após a II guerra, gerou muitos descontentamentos e protestos. Viver na cidade funcional, onde tudo tinha lugar determinado não era tão bom assim. O ser humano é complexo e precisa da complexidade espacial para se realizar em todas as suas dimensões. O livro de Aldo Rossi “A arquitetura da Cidade”, de 1965, junto com o livro de Robert Venturi “Complexidade e Contradição em Arquitetura”, de 1966, são tidos como os marcos da virada conceitual da arquitetura e urbanismo, porque botaram em cheque os princípios modernistas que já vinham sendo questionados em muitas partes do mundo. Começa aí o Pós-Modernismo.

Mas a morte, mesmo, da arquitetura moderna só foi anunciada mais tarde por Charles Jenks, que, inclusive, dá dia e hora para o fim da arquitetura moderna – pode parecer engraçado, mas, segundo ele, foi no dia 15 de julho de 1972, precisamente às 15h32min, quando foi realizada a primeira implosão de um conjunto habitacional moderno. Este conjunto, como muitos outros, vinham sofrendo severas críticas principalmente de psicólogos e sociólogos, por serem considerados como causa dos graves conflitos que ali ocorriam. E não é muito difícil imaginar o que pode ocorrer nestes tediosos conjuntos onde a segregação e a monotonia são suas marcas registradas. Desde que houve esta implosão, gostemos ou não do termo, passamos a viver na cidade pós-moderna. Pelo menos em termos teóricos, já que a cidade modernista não deixou de ser produzida e as coisas não são estanques.

O importante é que nosso velho Camillo Sitte volta a ser lido com interesse e as antigas cidades passam a ser vistas com novos olhos. O que parecia simples promiscuidade passa a ser visto como complexidade, como riqueza urbana.

A referência às cidades italianas passa a ser a nova senha de reconhecimento entre os eruditos da nova visão urbana. A Itália mais uma vez entra na moda. A turma do Patrimônio Histórico ganha importância e respeito, verdadeiras brigadas são organizadas para impedir que o que restava da cidade tradicional fosse totalmente demolido. Acho que todos aqui viveram a época das demolições na calada da noite, para despistar essas brigadas...

É a partir dessa época que o pedestre vai ser ressuscitado, quando começam a proliferar os calçadões nos centros das cidades. E, depois do choque petrolífero de 1976, também a bicicleta, a caminhada e modos alternativos de viver na cidade passaram a ser levados a sério. Nunca foram reciclados tantos edifícios nesse século quanto nos últimos 20 anos. É fábrica que vira centro cultural – estou me referindo ao SESC Pompéia, de Lina Bo Bardi, que é um marco na reciclagem de arquitetura no Brasil – farmácia que vira banco, aqui na Praça da Alfândega, hotel em centro cultural (a Casa de Cultura Mário Quintana), a Casa Torelly que vira Secretaria da Cultura, a Usina do Gazômetro e assim por diante. Até chegar ao ponto em que, hoje, em Buenos Aires, está sendo inaugurado um silo, esses edifícios redondos de armazenar grãos, que foi transformado em prédio residencial.

Porto Alegre, e as demais cidades brasileiras em maior ou menor grau, também passaram por um processo como este: o casco colonial original sofre um surto modernizador na virada do século XIX para o XX, quando alguns importantes edifícios, apesar da vestimenta eclética, são construídos como objetos isolados. São os ventos modernos batendo por aqui em busca de higiene e organização. Mas a preocupação com o desenho urbano ainda é visível nesses edifícios, basta olhar para o conjunto formado pelo MARGS e os Correios, na Praça da Alfândega, para se perceber isso. A preocupação de que um prédio se relacionasse com o outro, nesse caso, foi tão forte que a solução de cada um parece ter sido secundária para o arquiteto Wiederspahn. O mais importante, parece, foi a preocupação em criar aquele eixo em direção ao porto.

A grande virada modernista, mesmo, só vai se dar no final dos anos cinqüenta, com a implantação do plano diretor de Porto Alegre, que incentiva os edifícios de centro de terreno e vem acompanhada de uma verdadeira preparação para a revolução automobilística que quase acaba com a cidade. Os alargamentos viários e as famosas perimetrais foram planejados nessa época.

O período seguinte foi o dos calçadões, recuperação dos centros históricos, reciclagem de edifícios historicamente importantes, etc. Mas é importante que não fique a impressão de que essa história é linear. Basta lembrar que só agora começam os investimentos na Terceira Perimetral – como eu disse, ela é fruto de um planejamento do fim dos anos cinqüenta, o que vai causar muito barulho antes de começarem as obras.

É claro que, pelo menos os mais sensatos, não estão pleiteando a volta de coisa nenhuma. Não vamos ser simplistas em afirmar que o século XX foi um erro. O Movimento Moderno veio porque tinha que vir. A própria estética moderna é para mim um valor que não pode ser jogado fora. Se não vamos repetir o mesmo erro de que são acusados os modernistas, de terem jogado fora o bebê (a cidade histórica) junto com a água do banho. Na verdade estamos construindo uma nova cidade que tem como herança tanto um urbanismo histórico, pré-moderno, como moderno e a cidade atual é isto mesmo, eclética, misturada, esperando ser costurada para que a unidade nasça justamente da sua fragmentação, como num patchwork. Mas essa costura tem que ser feita com princípios, em busca de um sentido de unidade, se não não teremos Arte.

O perigo, ao meu ver é cairmos na Cidade Liberal, na crença de um auto-regulamento do mercado, que na verdade só esconde outra regulação que é a do marketing. E é nesta cidade fragmentada, carente de qualquer unidade, que temos que pensar em Arte Pública. Como diz Camillo Sitte: “artisticamente relevante só é aquilo que pode ser visto como um todo, ser apreendido em sua totalidade”. A tarefa, então, não é fácil. É por isso que me pareceu que, antes de mais nada, tínhamos que nos dar conta da complexidade desse nosso espaço urbano.

O espaço urbano é tanto construído pelas edificações privadas quanto pelo próprio poder público, o limite entre os dois não é muito preciso. A própria construção de tudo isto é Arte ou Arte é o que vem depois, encomendada e colocada por um profissional do ramo: o artista? É evidente que a maneira de se posicionar frente a toda esta gama de possibilidades colocadas pelas várias maneiras de ver o problema da arte na cidade vai resultar em práticas diferentes de construção do espaço urbano. E é sobre isso que eu queria que a gente pensasse um pouco: que lugar da Arte é esse afinal? Como é que se pode recuperar a forma de construir a cidade como uma obra-de-arte coletiva? Será que a inserção de objetos artísticos pontuais não está dentro da visão modernista de inserção de objetos positivos num espaço urbano negativo? Mas como mudar isso? Só se faz arte coletiva quando se tem o sentido da coletividade e, hoje, convenhamos, isso anda muito escasso. Acho que temos que buscar um caminho que privilegie soluções mais amplas, em que a Arte e a Arquitetura se encontrem muito antes do que tem sido habitual.

 

[1] Felizmente essa exigência foi abolida algum tempo depois desta conferência

[2] Alguns ônibus em Porto Alegre tem o costume de colar adesivos com poesias nas faces internas dos vidros das janelas.