A Construção da Nova Sede do Jockey Club

        A ERA CRISTAL

            A CONSTRUÇÃO DA NOVA SEDE DO JOCKEY CLUB

                        Flávio Kiefer em Histórias de Porto Alegre: Jockey Club, Porto Alegre, 2005

A realização de um sonho de mais de 15 anos dos amantes do turfe gaúcho começou a se realizar em janeiro de 1945, quando foi lançada a pedra fundamental do Hipódromo do Cristal. Mas ainda foi preciso esperar até 1950 para o lançamento do edital de concorrência internacional chamando empresas interessadas em projetar e construir a nova sede do Jockey Club, e mais nove anos até sua inauguração. O terreno para esse fim havia sido longamente negociado com a Prefeitura da capital em um acordo de permuta de 71,7 hectares de uma gleba do Bairro Cristal pelo antigo Hipódromo do Moinhos de Vento. Parte do terreno dependia de um aterro do Guaíba. Em 1951, a construtora Azevedo Moura e Gertum venceu o concurso com o anteprojeto do arquiteto Román Fresnedo Siri, que elaborou uma proposta de arquitetura moderna e bastante ousada estruturalmente.

O projeto escolhido veio a ter importância fundamental para a história da arquitetura de Porto Alegre. Os edifícios do Jockey Club passaram a formar o primeiro conjunto de grande porte a utilizar, em nosso meio, o repertório da arquitetura modernista brasileira. Esse movimento artístico – que havia iniciado carreira com a sede do Ministério da Educação e Saúde inaugurado em 1943 no Rio de Janeiro, e granjeou fama internacional para os arquitetos/urbanistas cariocas Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e Jorge Moreira – apresentava dificuldades para se implantar no Rio Grande do Sul. Esses mesmos arquitetos chegaram a projetar diversas sedes de autarquias e departamentos do Governo Federal em Porto Alegre, mas nenhum deles se materializou. O Jockey Club, por ter a liberdade de uma entidade privada, conseguiu “furar” a resistência que, de alguma forma, barrava a construção de grandes edifícios modernos em Porto Alegre. O curioso é que o autor desse feito foi um arquiteto uruguaio, o que por si só aumenta ainda mais o interesse que desperta esse projeto. Reforça-se, com ele, a idéia de que a arquitetura é uma arte que pode trabalhar com repertório de formas e regras compositivas pré-definidas, gerando os chamados movimentos, escolas ou estilos arquitetônicos que podem ser manuseados por muitas mãos. Fresnedo Siri, por exemplo, com o projeto, poderia ser confundido tranqüilamente como um dos expoentes do grupo de arquitetos da escola carioca.

Román Andrés Fresnedo Siri nasceu no Uruguai em 4 de fevereiro de 1903. Concluiu o curso de Arquitetura em 1930 e o mestrado na Universidad de Columbia, em Nova York. Teve carreira destacada, venceu importantes concursos de arquitetura e conquistou fama internacional. Entre seus principais projetos estão o Hipódromo de Maroñas e a Faculdade de Arquitetura em Montevidéu (1938), além da sede da Organização Pan-Americana de Saúde em Washington D.C. (1961). Durante a realização do projeto executivo para a nova sede do Jockey, concluído em 1953, ainda projetou o Edifício Esplanada nos altos da Avenida Independência, outro marco arquitetônico de Porto Alegre.

A inauguração do Jockey Club, em 1959, faz parte de um conjunto de projetos e obras da década de 50 responsável, em grande parte, pela configuração da Porto Alegre que conhecemos hoje. O primeiro deles é a realização do aterro da baía do Cristal, obra que pertence ao sistema de proteção contra cheias que a cidade reclamava desde a grande enchente de 1941. Começava ali um trabalho de mais de 30 anos que inclui, hoje, o aterro da Praia de Belas e do Parque da Harmonia, dos diques das Avenidas Diário de Notícias, Edvaldo Pereira Paiva, Castelo Branco e auto-estrada General Osório, além do Muro da Mauá. A entrega da antiga sede do clube para a Prefeitura, por sua vez, abriu caminho a modificações profundas no desenvolvimento do bairro Moinhos de Vento e de toda a cidade, como o planejamento da Segunda Avenida Perimetral e do Parque Moinhos de Vento.

Menos lembrada, mas não menos decisiva para o futuro da cidade e da Zona Sul, foi a decisão, na mesma década, de realizar a travessia do Guaíba a seco. O sistema de balsas que partiam do final da Avenida Pereira Passos, no bairro Assunção, foi substituído por um conjunto de pontes construídas do outro lado da cidade. A localização da travessia trouxe perspectivas totalmente novas para a geografia da região. A Zona Sul deixou de ser a porta da cidade por onde se realizava toda a conexão com o Sul do Estado, o Uruguai e a Argentina, abrindo as condições para o que hoje os planejadores urbanos chamam de vocação residencial e de lazer dessa região da cidade. Não é muito difícil imaginar o tipo de desenvolvimento urbano que teria ocorrido ali se tivesse sido escolhida a alternativa de realizar a ponte no mesmo local da balsa.

Vale lembrar, ainda, que essa década terminou com a aprovação, em 1959, de um novo plano diretor para Porto Alegre, momento importante de planejamento e controle das edificações da cidade, processo que, em suas marchas e contramarchas ainda em curso, conseguiu, com os edifícios de pequeno porte e a modificação controlada da paisagem, diferenciar positivamente Porto Alegre em relação às demais capitais brasileiras.

A valorização da obra de Fresnedo Siri é um fato recente. Em 1998, 200 assinaturas de professores e alunos da Faculdade de Arquitetura Ritter dos Reis solicitaram ao prefeito municipal o tombamento do conjunto dos edifícios, processo que agora entrou em sua fase final de aprovação. A motivação para o pedido de tombamento veio do reconhecimento da qualidade de seu projeto, que utiliza com maestria o repertório da arquitetura modernista identificado com a escola carioca.

Durante muito tempo, muitas das qualidades do Jockey Club foram ofuscadas por sua engenhosa e ousada solução estrutural. O grande balanço da marquise, que protege a arquibancada, e seu sistema de sustentação por cabos, além de prodigioso, antecipa as estruturas tracionadas por tirantes expostos que Affonso Eduardo Reidy utilizou a seguir no projeto do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O uso de tirantes na arquitetura de edifícios foi introduzido por Le Corbusier no projeto não-construído do Palácio dos Soviets em 1931. No Jockey Club, uma única coluna suporta o peso de uma viga de 42 metros de comprimento de maneira assimétrica: um dos balanços é 40% maior do que o outro. Essa viga é protendida pelo método francês Freyssinet e tem seu equilíbrio restabelecido por tirantes metálicos que ancoram a extremidade do balanço menor diretamente ao solo, nas fundações do edifício. O alinhamento paralelo de diversas vigas, amarradas transversalmente por treliças de concreto, forma a grande marquise de cobertura de cada um dos pavilhões. Por baixo vê-se uma laje pontilhada por luminárias, e por cima uma cobertura de telhas comuns. Internamente, um sótão de serviços permite a troca de lâmpadas e esconde os reservatórios de água. A conjunção estética, funcional e construtiva desta solução é de uma simplicidade genial: não há a menor artificialidade, tudo é feito com espantosa naturalidade – para os que conhecem as injunções do fazer arquitetônico.

Os grandes pavilhões que abrigam o público aparentemente só variam de tamanho, obedecendo todos a um mesmo princípio de projeto, mas, na verdade, cada um tem suas peculiaridades. O pavilhão Social destaca-se pela portaria e passarela de acesso que, com auxílio de escadas rolantes, se descola do chão e leva o visitante diretamente ao segundo pavimento. O caminho, todo envidraçado, permite que se desfrute desde o alto a arquitetura e o paisagismo do conjunto, em um passeio preparatório e majestoso ao ingresso no mundo sofisticado do turfe. Sob essa passarela pode-se ver uma parte do térreo que desobedece totalmente à regra ortogonal do pavilhão. Na verdade, os observadores atentos vão perceber que essas saliências assimétricas não causam transtorno algum porque estão submetidas a uma regra de outra ordem, que subordina cada uma das saliências a um princípio maior que une os diversos pavilhões mais baixos: nasce no pavilhão curvo da Veterinária, passa pelo pavilhão Apostas Curva, prossegue, por sua vez, no térreo que se projeta para fora do corpo principal do pavilhão Social sob a ponte do acesso principal e faz a ligação com a Apostas Reta, estabelecendo uma verdadeira costura sinuosa por entre a regra retilínea dos pavilhões principais. O desenho dos caminhos e jardins externos complementa e reforça a contraposição orgânica à rigidez cartesiana dos pavilhões.

Não tivesse sido um estrangeiro projetando em Porto Alegre nos anos 50, esse projeto não figuraria em lugar de honra nos catálogos da arquitetura brasileira? A solução dos brises-soleil metálicos utilizados para proteger as fachadas do sol oeste colocados como uma segunda pele do edifício é também uma solução que ainda não tinha sido experimentada no Brasil. A solução das colunas centrais que sustentam todo o peso das grandes marquises também é digna de nota. Para não fugir à regra coluna-cilíndrica estabelecida por ele mesmo, precisando uma seção muito maior do que as demais colunas, o que a tornaria deselegante, Fresnedo Siri faz um desenho que expressa a idéia de uma coluna dupla, que sai uma de dentro da outra, congelando o movimento com uma contracurva de união das duas. Uma verdadeira aula de arquitetura, deixando clara sua preocupação com a subordinação do desenho das partes à regra do conjunto. Como diria Lúcio Costa, Fresnedo Siri joga aqui com sabedoria e arte o jogo da arquitetura moderna: a estrutura independente é percebida com clareza até pelo leigo, as lajes duplas para que o sistema de vigas desaparecesse, os mezaninos em curva para acentuar a independência da estrutura e as vedações e divisórias que nunca prescindem das colunas. Os revestimentos em pastilhas, inclusive como solução de piso, o projeto paisagístico, a organicidade da relação entre os diversos prédios e o resultado do conjunto fazem desse projeto uma obra de mestre da arquitetura.

Bibliografia

BORONAT, J. Yolanda; RISSO, Marta R. Roman Fresnedo Siri: un arquitecto uruguayo. Montevideo: Instituto de Historia de la Arquitectura/Universidad de la Republica, 1984. 129 p.

CANNEZ, Ana; COMAS, Carlos Eduardo; BOHER, Glênio. Arquiteturas cisplatinas: Román Fresnedo Siri e Eladio Dieste em Porto Alegre. Porto Alegre: UniRitter, 2004.

SANTIAGO, Vicente Marques. Jockey Club do RGS; Relatório do Biênio 1958/59.

WERNER, Gilberto. 90 Anos de História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: MB Marbra, 1997.

Jornal Diário de Notícias. Porto Alegre, 14 jan. 1945.