Novos Museus (3)

NOVOS MUSEUS

                                                                         Flávio Kiefer - Publicado em Zero Hora 08/1996

O Brasil conquistou, como vimos em artigo anterior, relativa importância no panorama internacional de museus com a construção, nos anos 60, do MAM no Rio de Janeiro e do MASP em São Paulo. Hoje, estes dois edifícios fazem parte, para orgulho da memória nacional, da história da arquitetura moderna mundial. De lá para cá, entretanto, um verdadeiro abismo nos separa deste mesmo panorama internacional: o Brasil praticamente parou de investir em museus, enquanto um verdadeiro boom de construção e reconstrução de museus tomou conta dos países ricos a partir dos anos 80.

Para se ter uma idéia do que vêm ocorrendo no mundo desenvolvido, basta lembrar que o governo Miterrand investiu 280 milhões de dólares[1] para transformar uma velha estação de trens abandonada no moderníssimo museu D’Orsay, dedicando 45.000m2 às artes do século XIX. Este investimento significou, entretanto, apenas uma pequena parcela dos investimentos franceses em museus. O museu do Louvre localizado a poucos metros dali consumiu, por exemplo, uma cifra que passa do bilhão de dólares para ser totalmente modernizado. O diretor dos Museus da França, em 1992, Jacques Sallois se orgulhava: “Temos mais de 250 canteiros de obras simultâneos em toda frança”[2].

Aqui mesmo em Porto Alegre, em 1990, tivemos oportunidade de ver, na Casa de Cultura Mário Quintana, a exposição itinerante organizada pelo Instituto Goethe “Novas Construções de Museus na Alemanha” com quase duas dezenas de projetos de construção e reconstrução de museus. A situação não é diferente nos Estados Unidos, Japão, Itália ou Espanha . Há desde, os anos 80, uma verdadeira corrida para a construção dos novos templos do final do milênio.

As razões de tanto investimento são várias e vão desde propaganda e competição internacional até demandas sociais efetivas de maior acesso à cultura. Não se pode esquecer também da valorização dos patrimônios públicos e privados e, principalmente, do turismo. Nos países ricos se sabe que além da significação cultural os museus movimentam engrenagens que propiciam grandes vantagens econômicas. O museu D’Orsay, por exemplo, foi projetado para receber 3 milhões de visitantes ao ano. Se considerarmos que grande parte deste contingente é de turistas, podemos ter uma idéia da significação econômica deste edifício  para a cidade de Paris.

Mas se as razões acima são suficientes para abrir a mão do mais empedernido ministro da economia, a verdade é que também o ambiente cultural das últimas duas décadas mudou muito e estava a exigir uma renovação espacial dos museus. De um lado, a nova ciência museológica, já devidademente reconhecida e organizada através do mundo, vinha pressionando pela melhoria das condições de guarda e exibição dos acervos. De outro, os museus, apoiados pelo meio cultural e artístico -e para não perder prestígio (ou público) -passaram a questionar a imagem de um templo nacional sagrado da cultura que adquiriram desde que foram constituídos no século XVIII. Os museus nacionais criaram, quando transformaram antigas coleções particulares (reais ou privadas) em patrimônio público[3], uma grande divisão espacial, separando “os produtores de conhecimento” dos “consumidores de conhecimento”, antes unidos na figura do colecionador. Esta divisão hoje é questionada. O público tem ganhado cada vez mais importância dentro dos museus, agora não só em termos de conforto, mas também para que tenha maior acesso aos acervos e possa interagir, com auxílio dos computadores, com todo tipo de informação disponível. Já existem experiências no Canadá e Estados Unidos dos chamados museus abertos, onde até mesmo os escritórios técnicos são “expostos” através de vidros: nada é escondido.

A própria arte, como não poderia deixar de ser, também entrou com suas demandas. Neste final de século, o que era intenção das vanguardas modernistas, finalmente virou prática corriqueira: o abandono dos suportes tradicionais. Hoje a arte invade o espaço, requer energia e outros insumos que o museu tradicional não pode fornecer.

Também a arquitetura, que passou por um grande processo de renovação e questionamento, estava ávida de exercitar sua nova liberdade. Velhos postulados modernistas (fruto também, ironia da história, de um brado de liberdade) cairam por terra. Porque a planta tem que ser livre como queria Le Corbusier? Porque a continuidade espacial, o pilotis, a fachada de vidro? Todos estes dogmas cairam por terra. Entre as principais novidades conceituais da “nova” arquitetura, estava a recuperação de valores históricos “jogados fora”com o modernismo e, conseqüência, uma grande preocupação com o patrimônio construído das cidades. Nunca se reciclou tantos edifícios neste século quanto nas duas últimas décadas. Os antigos museus, claro, passaram a ser um prato cheio!

O exemplo mais famoso é sem dúvida o do Louvre, em Paris, que além de ganhar a controvertida pirâmide de I. M. Pei, perdeu a imagem de antigo palácio ascético para ganhar a de um ambiente moderno e acolhedor, onde se encontra até um setor comercial com lojas. Ir ao Louvre já não significa necessariamente um programa com caráter instrutivo, para “beber cultura”; pode-se buscar ali, e esta é a filosofia dos novos museus, lazer, consumo, deleite, ou até mesmo simples fuga da solidão.

Entre muitos outros exemplos, vale a pena destacar a ampliação da Neue Staatsgalerie em Stuttgart, inaugurada em 1982. Para elaborar sua planta, o autor deste projeto James Stirling buscou uma referência no antigo Altes Museum(1823-1830) de Schinkel. Os espaços de exposição retomam os percursos em enfilade. Ou seja, Stirling retoma da história o princípio das salas sucessivas dos primeiros museus, o que era considerado extremamente conservador para os modernistas que preferiam a fluidez do espaço. Nos espaços de circulação e convivência há, bem ao gosto pós-moderno um abuso de ecletismo, citações, ironia e humor.

Outro projeto interessante, que, conceitualmente, bem poderia ser a solução  para nosso complicado MARGS, é o do Museu da Arquitetura de Frankfurt. Mathias Ungers projetou dentro de um edifício histórico uma estrutura totalmente independente e afastada das fachadas que resolveu numa tacada só os dois maiores problemas deste tipo de projeto: o respeito ao patrimônio histórico e o atendimento a um programa de necessidades contemporâneo.

Atualmente há, sem dúvida, uma grande licença para se trabalhar com a arquitetura de museus. Entretanto, esta liberdade se apoia em alguns princípios básicos: a complexidade do programa, a substituição do espaço flexível pelas tradicionais salas e galerias, a excelência dos métodos de conservação, exibição e iluminação dos acervos[4]. Também o papel urbano que estes edifícios assumem tem sido visto com muita atenção, já que, principalmente quando se trata de antigos museus, possibilitam o rejuvenescimento de áreas tradicionais da cidade.

[1] segundo a revista Orsay, número especial de Connaissance des Arts.

[2] Revista Forces n° 98, Montreal.

[3] HOOPER-GREENHILL. Museums and the Shaping of Knowledge. Londres: Routledge, 1995.

[4] MONTANER, Josep Maria. Nouveaux Musée. Barcelona: Gustavo Gili, 1990.