Qual nossa medida?

Qual a nossa medida?

                                       Flávio Kiefer, publicado no Jornal Já - 06/2003

A questão das alturas dos edifícios de Porto Alegre está voltando à ordem do dia com uma força tremenda. Uma boa parte da população, descobrindo que se deixou enganar em relação ao novo plano diretor, está se organizando em movimentos de bairro com a finalidade de combater a grande altura das novas edifícicações. A discussão não é nova e também não é só nossa.

Há algum tempo atrás, o Dr. Eckhart Ribbeck, coordenador do Instituto de Urbanismo da Universidade de Stuttgart, fez uma palestra no Instituto Goethe em que mostrava o quão radical são os alemães nesse assunto. Lá, como regra, não são aceitos edifícios com mais de 20m de altura (6 pavimentos). A exceção se dá em Franckfurt, que adotou uma política de grandes torres de escritórios no estilo americano visando se tornar o centro financeiro da Europa. Mas, mesmo assim, as zonas em que elas podem ser construídas são cuidadosamente delimitadas (e discutidas!), próximas de transporte público  e sem (sic) estacionamentos! Exatamente como Manhatan, onde o grande adensamento inviabiliza o uso do automóvel particular.

Berlim, que sofre a maior inversão do mundo de capitais direcionados a construção civil, coisa de 300 bilhões de reais, proibiu edifícios com mais de 20m de altura. Algumas exceções, muito bem estudadas, inclusive do ponto de vista de sua qualidade arquitetônica, são admitidas. Mas a regra é que se reconstrua “criticamente” a cidade de antes da II Guerra, com o perfil de pouca altura, tão ao gosto da racionalidade européia. Os grandes edifícios são vistos como anti-ecológicos, pelo seu alto dispêndio de energia na sua construção e manutenção e só são aceitos em condições muito especiais.

Em Bali, um paraíso natural, a resolução do plano diretor para limitar as alturas foi muito simples e enfática: nenhum edifício pode ser maior que uma palmeira...

E Porto Alegre? Vamos deixar que os edifícios cresçam indiscriminadamente como começou a acontecer depois que foram introduzidos diversos “artifícios” na lei do plano diretor e que foram consolidados e ampliados no novo plano? Vamos deixar que bairros tradicionais e com uma certa homogenidade volumétrica seja abruptamente alterada? Em nome de que? Se o capital imobiliário consegue remuneração na Alemanha e tantos outros lugares com pequenas edificações, se temos uma tradição de construção de pequenos edifícios, que inclusive democratiza o mercado de trabalho, e uma ótima qualidade de vida que não queremos perder, não é chegada a hora da população dizer o que pensa sobre qual é a nossa medida?

A minha opinião é que devemos proteger e recuperar a tradição de baixa altura de Porto Alegre, o que a tornou uma cidade peculiar no panorama brasileiro. Isso como regra. A possibilidade de construção de grandes edifícios deve ser usada para potencializar a revitalização de áreas específicas da cidade, como,por exemplo, os pátios da antiga rede ferroviária, onde o Tresnsurb opera abaixo de sua capacidade nominal. Em torno da FIERGS, no fim da linha 2 do metrô, poderia ser pensado um grande centro de negócios e assim por diante, sempre associando os grandes empreendimentos ao transporte público.

O pequeno porte e altura das edificações, que seria a regra geral para toda a cidade, dirigiria os investimentos do grande capital para áreas específicas, estratégicas no planejamento do desenvolvimento urbano. As áreas consolidadas deixariam de sofrer a pressão atual de reconstrução e a cidade se livraria desse processo anti-econômico de se reconstruir a cada vinte ou trinta anos. Além disso, com a redução dos índices de aproveitamento, ficaria muito mais fácil proteger o patrimônio arquitetônico e as boas condições de vida que Porto Alegre tem e não quer perder.