A Utopia Sobrevive (Zero Hora, 1990)

A Utopia Sobrevive

                               Flávio Kiefer – Porto Alegre, Zero Hora, 3 out 1990

Aos que dizem que o sonho acabou, que a história parou, ou buscam seus 15 minutos de glória. meus sentimentos. Podeser que o tedio da abundância ou o medo de perder privilégios os tenha feito chegar a este ponto. Pura perplexia de quem vive num primeiro mundo pós-moderno ou como se lá estivesse. É pena.

Os que vivem o mundo real, tal qual ele ainda é, tem que sonhar. E como! Viver aqui ainda é um ato de heroísmo, quase uma aventura, que se faz inveja aos europeus, não tem nada de regoziiante. É duro mesmo.

Assim foi a construção da Casa de Cultura Mario Quintana: uma grande utopia que, quase por milagre, conquistou o apoio do Governador Simon. Mas nem por isso o caminho foi fácil: entre os idealizadores e o governador uma massa não reconhecível e muito menos localizável ignorou, torpedeou e fez de tudo para provar que a época de sonhos era passado. E não se enganem, ainda vai fazer muito para amputar a realização desta utopia.

Nao escrevo para valorizar o trabalho de quem quer que seia, mas  para mostrar aos que acreditam na história que ainda vale a pena lutar, que ainda existem verdades, que o bom ainda é melhor que o ruim e que a mediocridade não vai conseguir sentar ao lado da excelência.

Utopia ja tinha sido Theo Wiederspahn quando recebeu dois terrenos frente a frente em uma mesma rua. Com audácia e genialidade transformou o que seriam dois prédios de modestas fachadas em um prédio só com majestosas frentes frentes impregnadas de dualidades e significados arquitetônicos para duas ruas principais da cidade. A sua utopia nunca chegou ao fim porque burocratas da epoca sustaram-lhe a permissão de prosseguir em tão arrojado sonho. 0 prédio ficou então asimétrico, ferindo o conceito estético de seu autor, mas registrando para sempre as dificuldades de se realizar as coisas por inteiro na província.

Muito tempo depois, antes que o prédio se tornasse ruína, um novo sonho nascia: transformar o velho hotel em casa de cultura. Não sei o que pretendiam, mas quando chegou a nossa vez entendi que a grande utopia devia continuar, não só no seu sentido arquitetônico, mas também no cultural.

O desejo legível de unidade que o prédio expressava na sua arquitetura exterior devia ser trazido para se interior. A Casa de Cultura tinha que ser uma coisa só, inteira e integra. E mais, tinha que ser pública e voltada para a liberdade do fazer artístico. Era inadmissível pensarmos em superposição ou justaposição, queríamos integração, entendimento, convivência, troca e enriquecimento. Uma utopia enfim. Formação, pesquisa e fruição cultural se juntaram num mesmo espaço, numa experiência singular em termos de centros culturais. É certo que esta Casa tem muito de Beaubourg. de Sesc Pompeia e Oficinas Trés Rios, mas não é nem uma delas nem de longe. Aqui se fez uma utopia chamada Casa de Cultura Mario Quintana.

É dificil dizer se seremos mais  felizes que o arquiteto que projetou o prédio. Por enquanto nosso sonho está amputado. Não temos cafés, livraria, restaurante, os cinemas ainda não estão instalados e os recursos tecnológico de controle do edifício não foram comprados. Pior, ainda não temos uma estrutura definida para receber a obra acabada. Por enquanto, a pequena equipe de funcionários se desdobra para manter a Casa aberta e não deixar o sonho morrer. Infelizmente, fica a pergunta: já deixamos de ser aquela província que não permite que se realize as coisas por inteiro?