Casa de Cultura Mário Quintana

Nada como uma boa acolhida por parte do público para comprovar o sucesso de uma obra. Isso vale pra livros, músicas, peças teatrais ou cinematográficas; no caso, se aplica também à receptividade que mereceu um dos mais recentes espaços gaúchos que dão abrigo a essas manifestações culturais e várias outras: a Casa de Cultura Mário Quintana.

É um edifício singular em Porto Alegre: situa-se no "centro velho", região que, à maneira de tantos outros "centros velhos" de nossas capitais, fica esvaziada de vida noturna em fins de semana; é uma obra projetada por Theo Wiederspahn (arquiteto que merecerá um reconhecimento além das fronteiras gaúchas); ostenta uma arquitetura ouoco usual - duas lâminas (altas, na época da construção) conformando uma via pública cujo céu é cortado por vistoso e transparentes passadiços. Algo sui generis como uma multiplicação do passadiço oitocentista em Diamantina ou a visão futurística da cidade no início do século XX, com travessias aéreas em vários níves ligando os arranha-céus nas alturas.

Vagar pelo "centro velho" porto-alegrense é um percuso que pode surpreender os desavisados. O silêncio e a solidão marcial que rondam a área militar nessa região repentinamente se vêem subvertidos na movimentação e nas ruas sem vagas para estacionamento nos arredores do antigo Majestic Hotel. A tranqüilidade constrangedora do centro antigo é perturbada pela badalação jovem e permanente daquele lugar cheio de luz, vida e gente. Resta torcer para que a Casa de Cultura Mário Quintana mantenha essa vitalidade - isto é, que seues mantenedores se disponham a sustentar e diversificar a programação cultural do espaço. Gente para usufruir já se apresentou e o ambiente comprovou possuir qualidades de sobra.

Mais surpreendente, todavia, é como o poder público se arrogou na condição de mecenas do espaço cultural na era do demonte oficial da cultura e da panacéia do laissez-faire. Dois arquitetos da Secretaria da Cultura desenvolveram o projeto e tocaram a obra com poder de decisão pouco usual para arquitetos-barnabés. Na linhagem, talvez, de Luiz Nunes em Pernambuco ou Affonso Eduardo Reidy no Rio de Janeiro, num passado já esquecido.

Hugo Segawa

Projeto
Flávio Kiefer, Joel Gorski
Localização
Porto Alegre/RS
Área do Terreno
1540 m2
Área Construida
12000 m2
Data do Projeto
1987
Colaboradores
Eliane Santos, Cármen Nunes, Ceres Storchi, Pedro Fendt