EMPENAS VIVAS

Partindo de sentimentos tão tristes, gerados pela perda de tantos jovens em um acontecimento tão trágico, como chegar à materialização de um lugar voltado para a vida? Como transformar a dor e a saudade em produtividade? A construção de um lugar dedicado à memória, às artes e à cultura é um bom princípio de resposta. Cabe à arquitetura, enquanto arte, completá-la.

Nosso desenho parte do princípio de que não se deve substituir a antiga edificação por uma nova. Consideramos que a interrupção da continuidade das fachadas da Rua dos Andradas é uma marca importante: foi ali, entre duas empenas, que tudo aconteceu, portanto, o lugar deve permanecer identificável. Para garantir este hiato, duas novas paredes - vivas e verdes - asseguram o afastamento dos vizinhos, como se marcassem uma pausa na densa paisagem construída da rua. Entre elas, pequenos pontos de luz brilham como estrelas: uma para cada jovem que ali perdeu a vida. Já não temos um terreno comum, abre-se um espaço na cidade para, a partir do passado, apontar o futuro.

O vazio entre as empenas não é inerte. Dois maciços, perpendiculares aos planos verdes, brotam do chão para receber o pouso suave de duas grandes vigas e uma laje em balanço, formando uma praça em dois níveis. No nível inferior, por onde o público acessa a praça, a calçada invade o terreno até a metade de sua profundidade. Sob a sombra do grande balanço, um café propicia o lugar para a fala necessária, para o encontro dos velhos e novos amigos e também como local privilegiado para assistir a eventuais performances, que poderão acontecer no átrio externo, contínuo ao foyer do auditório. O nível de cima é a Praça Memorial e nela a vista não se dispersa: o espaço é reservado, um deck de madeira aberto apenas para o céu. O lugar é de silêncio espiritual, de meditação, do sentir e pensar. O que se pode ver, além das paredes verdes e um espelho d’água de borda infinita, são os 242 nomes gravados em baixo relevo nas grandes vigas de concreto aparente. O que se ouve é o som da água escorrendo suavemente.

A ligação entre os dois níveis da praça se dá, externamente, por uma larga escadaria, igual a tantas que vemos em igrejas antigas e outros lugares simbólicos do Brasil afora. Ladeada por paredões cegos, ela convida o visitante a acalmar o espírito, a perceber a ressignificação do espaço durante o percurso da subida e vice-versa.

A segunda metade do terreno é ocupada por uma edificação de três pavimentos com fachada neutra de revestimento cimentício que abriga, no térreo, o auditório, com qualidade acústica para apresentações musicais, a sala de exposições temporárias e a bilheteria; no segundo pavimento, que também se acessa pelo nível superior da praça, está localizado o Salão Memorial; e, no terceiro, o Espaço Corporativo da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria. Todos os níveis são acessados pelo elevador situado dentro deste mesmo volume. O conjunto de 790m² de área construída conta com climatização mecânica e a segurança patrimonial do mesmo é garantida por câmeras estrategicamente colocadas, sensores de presença, alarme e monitoramento à distância.

Assim, as diversas funções desejadas para o Memorial às Vítimas da Kiss estão integradas espacialmente, porém guardam sua distinção, seja no plano funcional ou emocional.

 

Projeto
Arq. Flávio Kiefer, Arq. Lídia Arcevenco
Localização
Santa Maria/RS
Área do Terreno
640 m2
Área Construida
790 m2
Data do Projeto
2018
Colaboradores
Arq. Gustavo Franco, Arq. Ricardo Rossi, Acad. Marina Camara