Memorial Ponte do Guaíba

“Um lugar para admirar e reverenciar a Ponte do Guaíba, cartão-postal da cidade” - com essa concepção a CONCEPA, através do consultor cultural Fernando Schuler, encomendou um projeto para o Memorial da Ponte que ocuparia parte dos pilotis do Parque Náutico, uma construção modernista de interesse para a arquitetura de Porto Alegre. A idéia que contou, desde o início, com o apoio do DESP e da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul nasceu com o projeto de iluminação decorativa permanente da Ponte, que a transformará, também, em uma reerência noturna de Porto Alegre.

 

Entretanto, o local escolhido, obrigaria, necessariamente, a uma solução acanhada para a pretensão do programa. Qualquer  nova parede interfiriria na arquitetura do prédio exitente. A necessidade de manter a transparência dos pilotis criaria, por outro lado, dificuldades muito grandes para a organização de exposição do material documental e fotográfico previsto para o Memorial.

 

Depois de uma visita ao Parque Náutico - que tem uma rara beleza por estar inserido no meio do porto, com vista privilegiada para a Ponte e as ilhas, associando uma paisagem urbana de trabalho com a natureza - e entrevistar seus administradores ficou claro que seria benéfico seguir por outro caminho. Também chamou a atenção a grande disponiblidade de áreas sub-aproveitadas que permitiu que se investisse numa proposta mais arrojada, que desse novo vigor ao prédio existente, sem dúvida importante, mas desvalorizado pelo ambiente completamente carente de outras construções do mesmo porte e interesse. O próprio Parque Náutico, dedicado ao remo e esportes náuticos, está necessitando de investimentos que complementem seu projeto original e de novos interesses que viabilizem, finalmente, sua vocação e potencial turístico.

 

A implantação de um Memorial da Ponte no Parque Náutico, como imaginado aqui, será um fator de atração importante e poderá viabilizar novos investimentos, como, por exemplo, a reabertura do restaurante, a conexão de barco com o centro da cidade e a associação com o DC Navegantes, unindo lazer cultural, esportes e comércio.

 

A idéia básica do projeto contempla as seguintes intenções:

 

- completar e acentuar o programa original do Parque Náutico - dando nova dimensão ao anfiteatro ao ar livre; construindo o trapiche e atracadouro;

- agregar um deck de observação; com vista para o Guaíba, a Ponte e o próprio Memorial, despertando o interesse de um visita;

- criar um fato arquitetônico novo e relevante no local, a ser somado à Ponte e ao prédio modernista do Parque Nautico;

- agregar a função Memorial da Ponte, com uma perspectiva artístico-cultural e dinâmica;

 

O desenvolvimento da idéia de um prédio autônomo para o Memorial da Ponte trouxe uma nova dimensão para o projeto: além de local para exposição do acervo de fotos, documentos, peças e maquetes da história da Ponte, também, para exposições temáticas itinerantes e video-instalação. Um pequeno auditório, com tela translúcida para retro-projeções, depósito para o acervo e serviços completa o programa do Memorial. Externamente, uma arquibancada passa a substituir o talude circular mal aproveitado como anfiteatro e serve de acesso ao deck de observação. Esse local, com bancos de madeira formados a partir do próprio piso, serve como observatório da paisagem e permite uma visão singular para dentro do próprio Memorial. Eventualmente, pode servir como reforço de lotação para o público das regatas.

 

Arquitetônicamente o projeto foi formulado para valorizar o prédio existente, criando um contraponto do outro lado da doca principal do Parque Náutico. O novo edifício utiliza-se das dimensões do prédio existente, de maneira que os dois prédios passem a formar um conjunto com mais força na paisagem, com a ajuda da doca destinada a marina, que passa a assumir uma posição central de fato.

 

O uso de uma linguagem moderna, mas com características contemporâneas, valoriza a obra existente. O partido adotado utiliza-se dos mesmos elementos do prédio existente - colunas, arquibancada, laje em balanço - e sua dimensão básica. A diferença está na estratégia de projeto, que utiliza-se desses elementos de uma forma totalmente livre e afinada com o programa de necessidades estabelecido. Assim a arquibancada está no chão e voltada para o lado interno, formando o anfiteatro. As colunas sustentam uma cobertura em balanço que faz sombra ao deck de observação, em vez de suportarem o edifício.

 

O memorial é propositalmente introspectivo para valorizar seu acervo e seu espaço interno. O clima de isolamento, por outro lado, permite a reflexão sobre a qualidade da paisagem circundante. Essa possibilidade de observação diferenciada da paisagem é dada, também, através de periscópios (com lentes de aumento) estratégicamente distribuídos na fachada cega voltada para o Guaíba.

 

As três funções do edifício - memorial, arquibancada e deck contemplativo - são autônomas. Mas além de materialmente interconectadas elas criam comunicações espaciais sutis e importantes. A idéia é que o edifício desperte múltiplos e permanentes interesses, independentemente de horário, programação ou utilização funcional.

 

Do ponto de vista técnico, o edifício é muito simples e de fácil manutenção. O concreto à vista, a madeira e o vidro tem vida longa e envelhecem com muita dignidade. A localização à beira do Guaíba e as precauções construtivas em relação ao conforto ambiental - piso elevado e ventilado, paredes duplas ventiladas, sombreamento e ventilação cruzada - permitem prever uma atmosfera interna agradável na quase totalidade dos dias do ano sem a utilização de condicionamento do ar.

 

Flávio Kiefer 

Projeto
Flávio Kiefer
Localização
Porto Alegre/RS
Área do Terreno
2500 m2
Área Construida
330 m2
Data do Projeto
2002
Colaboradores
Arq. Leonardo Marques Hortencio, Arq. Marcelo Nunes Kiefer, Acad. Arq. Roberta T. N. Lopes