Porto dos Casais

A proposta apresentada neste trabalho parte do pressuposto de que a reciclagem do Cais do Porto só vai se efetivar quando os interesses dos investidores e da comunidade se estabelecerem de forma concreta e mutuamente contemplarem seus propósitos. O importante, neste momento, é estimular as duas partes mostrando toda a potencialidade desta zona se integrar na vida cotidiana do centro da cidade recuperando-lhe  um novo valor: a vida aquática. Para a faixa portuária voltar a fazer parte da cidade pouco importa a derrubada do "muro", o fundamental é que se estabeleça ali os interesses que fazem com que as pessoas se reunam para efetivarem suas comemorações, trocas, festas, cultos e todas as outras atividades que configuram a vida urbana. A construção, reforma ou readaptação de edifícios ou parcelas da cidade só obtém sucesso quando identificam e respondem com precisão a estas demandas. O exemplo de "ilhas" de renovação urbana plenamente acessíveis mas mortas de interesse, infelizmente se espalharam por todos os cantos do mundo. O Cais do Porto tem que se estabelecer como todas as cidades bem sucedidas do mundo: oferecendo acessibilidade, espaços e negociação.

A reciclagem do Cais do Porto, apresentada aqui, está sendo planejada para detectar e responder a estas demandas, mostrando para a comunidade e os agentes econômicos a viabilidade deste bordo da cidade se tornar o grande catalisador da renovação do centro da cidade. Desenha-se aqui os vetores desta transformação, não um anteprojeto de edificações. É a partir da concertação dos interesses surgidos nesta primeira etapa que se poderá desenhar um novo e definitivo programa de necessidades e seu projeto arquitetônico.

A Rua da Praia, eixo importante no desenvolvimento do centro da cidade, num gesto simbólico, mas carregado de significado prático, é jogada de volta para a margem da cidade, dentro do rio Guaíba. Com isto se estabelece um novo eixo paralelo ao antigo, destacando um QUARTADO do centro da cidade. Os 4 vértices assim formados vão cumprir um papel importante como vetores do desenvolvimento do centro da cidade:

1 - O Vértice Esquina Democrática, é o coração da cidade, ponto de encontro de todos os quadrantes e de vocação comercial consolidada. Está em fase de renovação com o Centro 24 Horas;

2 - O Vértice Gasômetro têm vocação cultural e de lazer, recebe muita gente nos fins de semana, mas padece de um certo isolamento. Necessita de mais atividades e uma melhor integração viária com o centro da cidade, que é tratado ali como se fosse os "fundos" e não a frente da cidade.

3 - A região  TRENSURB/MERCADO é tradicionalmente o "fim-da-linha" da cidade, ponto de chegada, saída e transbordo de milhares de pessoas diariamente. A exiguidade do espaço é a causa das dificuldades deste lugar. A implantação de transporte fluvial, a ocupação da faixa portuária para terminal de ônibus (com acesso exclusivo pelo viaduto dda rodoviária) e a ocupação de dois armazens para restituir o Mercado Livre ao seus antigo lugar, associado aos investimentos realizados no Mercado Público, 
dará ao Vértice Intermodal as condições necessárias para atender a demanda atual e futura.

4 - O Vértice Internacional, cria um pólo de interesse para grandes empresas, oferecendo lotes para a construção de hotéis, centro de negócios e eventos de padrão internacional. Uma marina privada e dois armazens reciclados como Centro de Feiras e Eventos atraem permanentemente um novo público para o centro da cidade. Este vértice tem a intenção de reverter a chamada "decadência do centro", resultante da saída de serviços que não conseguem requalificar seus espaços no próprio centro da cidade. A revitalização de centro como "centro de negócios" deve se espraiar pela avenida Mauá, Siqueira Campos e Sete de Setembro.

Estes 4 vértices polarizadores criarão eixos indutores secundários que irradiarão um processo de revalorização de todo o QUARTADO. - É importante que o QUARTADO seja gerido por um gabinete aberto a proposições, atuando através de critérios e não por índices fixos e pré-definidos. - Pode-se prever o desenvolvimeto de pelo menos 4 eixos principais:

A - O eixo da rua dos Andradas, já definido como "corredor cultural", unindo o vértice comercial ao cultural;

B - O eixo da Borges, sem possibilidade de expansão, é um eixo comercial que canaliza o fluxo de "entrada e saída" do quadrilátero.

C - O eixo Gasômetro-Vértice Internacional, planejado como um eixo de lazer, cultura, turismo e serviços. Tem forte caracterização simbólica, é neste eixo que o rio Guaíba se encontra com o que sobrou de suas margens naturais ( sem aterro e sem cais). A localização da OSPA, associada aos equipamentos existentes e projetados viabiliza a reciclagem das oficinas do DNOS em Centro Gastronômico.

D - O eixo Cais do Porto é um eixo de serviços, náutico e turístico.

Entre os dois eixos longitudinais, A e D, se estabelecerá uma complementarização de interesses com a oferta de estacionamento abundante, transportes, serviços e lazer, desde que todas as ruas transversais a estes eixos façam a ligação do Cais do Porto com o Centro Velho.

OS ARMAZENS "A" E "B"

A solução para o problema de reciclar os armazens "A" e "B", adaptando-os a novas funções, partiu de uma proposição simples: a projetação de uma réplica dos próprios armazens na escala 1:1,5 inserida em seus centros geométricos. Esta solução contempla de forma satisfatória e instigante tanto o aspecto funcional quanto conceitual da arquitetura.

Funcionalmente, esta atitude de projeto cria dois grandes salões internos protegidos por "poches" situados entre a pele externa e a interna de cada armazém. Em um dos salões, do armazém "B", aproveitando o fato de que o cais foi incorporado recentemente a vida cultural da cidade com a apresentação de uma peça de teatro, se propõe um auditório que possa abrigar peças teatrais, audições, projeções (inclusive de cunho turístico e didático). No outro salão, do armazém "A", se propõe um espaço para exposições, pequenas feiras, festas ou outras atividades informais. Nos "poches" se distribuem as lojas, bares, restaurantes, centro de informações, vendas de ingresso e demais atividades solicitadas no edital.

Conceitualmete, este projeto estabelece uma discussão prática sobre a arquitetura do fim do milênio. O que é original e o que é falso nestes tempos pós-modernos? Qual a diferença entre o armazém original externo e a réplica interna? A reprodução, a cópia, a repetição e a duplicação tem motivado os artistas em todos os campos das artes já há um bom tempo. Na arquitetura são raras as oportunidades de abordarmos estas questões de forma tão direta quanto este projeto nos permite aqui.

O MURO

O "muro da Mauá" foi trabalhado neste projeto como uma existência, um dado de projeto. A solução encontrada foi transformá-lo em uma parede, ou muro de arrimo, elevando o leito da Faixa Portuária. Com isto se obtem um passeio público agradável,  já que elevado em relação ao plano da cidade e sem a conotação de passarela ou rua artificial. O tratamento deste piso elevado é o de uma rua comum, com calçadas e faixas de rolamento para circulação de transportes públicos e de serviço. Sob este piso, um grande estacionamento linear serve o Cais do Porto e o Centro da Velho, ajudando a viabilizar economicamente a reocupação do porto e garantindo renda permanente para o DEPREC. São 600 vagas divididas em três setores. Este mesmo estacionamento serve de acesso de serviço às instalações propostas paras os armazens. A solução de acesso na "boca" de cada rua transversal à av. Mauá recaracteriza e dinamiza o próprio "muro", além de se transformar num novo referencial para o Centro Velho. 

Em alguns pontos foram feitas mais algumas aberturas e em outros foi diminuída sua altura em 80cm. Todas estas aberturas podem ser fechadas em caso de necessidade.

O CAIS FLUTUANTE

A "Rua da Praia" jogada dentro do rio é um cais de madeira montado sobre cilindros de ferro pintado que flutua ancorada em estacas colocadas a cada 50m. Estas estacas servem ao mesmo tempo de torres de iluminação e de apoio às embarcações. A solução, que é barata, atende ao desejo existente de se implantar uma marina em Porto Alegre de uma forma segura já que o acesso aos barcos é facilmente controlado. Além disso, cria para toda a zona portuária a possibilidade de voltar a conviver com os barcos e todas as suas atividades relacionadas. Um ou dois guindastes podem permanecer no porto e oferecer a possibilidade de serviços de manutenção em um dos armazens.  

SISTEMA VIÁRIO

Cidades de reconhecido valor urbano não adotaram a solução de viadutos ou túneis para seus centros urbanos. Além de não solucionar definitivamente o problema de tráfego esta solução destrói o que é mais importante para a existência da própria vida urbana: o uso não segregado ou especializado das ruas da cidade. O acesso ao Cais do Porto pode prescindir dos viadutos e passarelas, basta que em todas as esquinas haja travessias sinalizadas aos pedestres.  

Por outro lado o Cais do Porto não pode continuar sendo uma ilha isolada. É importante que a circulação de pessoas e veículos se dê da mesma forma do que no resto da cidade. Para isso se propõe que toda esta nova região seja "loteada" como uma continuação do Centro Velho e por elas circulem, dentro de um certo ordenamento, ônibus, taxis, lotações, carros particulares e de serviço e pedestres. É a conjugação da oferta de serviços e atividades com o trânsito de veículos e pessoas que trará animação e segurança a esta "nova" zona da cidade.  

Para um melhor acesso ao Vértice Intermodal propõe-se que a saída projetada existente no viaduto sobre a Estação Rodoviária do Trensurb seja construída como uma saída da av. Castelo Branco em direção ao Cais do Porto. Este laço do viaduto pode ter duas mãos, já que as 3 pistas que descem em direção ao Túnel da Conceição e ao retorno ali existente são superdimensionadas para o tráfego existente (das 3 pistas da av. Castelo Branco 1 desce para a Rodoviária, 2 para a av. Mauá e 3 para o túnel, sem contar as 2 que seguiriam pela elevada da Mauá!)

Flávio Kiefer

Projeto
Flávio Kiefer
Localização
Porto Alegre/RS
Área do Terreno
100000 m2
Área Construida
82000 m2
Data do Projeto
1996
Colaboradores